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Tempo Histórico e Tempo Cronológico: Temporalidades Históricas

Tempo Histórico e Tempo Cronológico: Temporalidades Históricas

Neste artigo iremos analisar as diferenças entre o Tempo Histórico e Tempo Cronológico. Também veremos que cada sociedade se relaciona com o tempo de uma forma diferente.

Como exemplo analisaremos as diferenças entre o calendário hebraico (judaico), o calendário cristão e o calendário muçulmano.

As diferenças entre o tempo histórico, o tempo biológico, tempo geológico e o tempo psicológico.

Passado, presente e futuro. Instante, anterioridade e posterioridade. Processos reversíveis (reversível) e irreversíveis (irreversível). O tempo histórico e a contribuição da Filosofia.

Ao compreender melhor as temporalidades históricas você estará em melhores condições de responder a seguinte pergunta: o que é história?

Vídeo aula: Tempo Histórico e Tempo Cronológico – Parte 1

Tempo e História

O tempo está presente em todos os aspectos de nossa vida social. O tempo não para. Além disso, ele se movimenta várias direções diferentes ao mesmo tempo. Parece complicado, mas com um pouco de atenção as coisas ficarão mais tranquilas. Vamos analisar uma parte de cada vez.

Tempo: Uma Criação Cultural

Em primeiro lugar o tempo é uma criação cultural. Ou seja, cada cultura, cada sociedade tem um jeito diferente de se relacionar com o tempo. Com alguns exemplos fica mais fácil entender. Veremos a seguir três diferentes calendários existentes no mundo.

Vamos analisar o calendário hebraico (também conhecido como calendário judaico), o calendário cristão e calendário muçulmano. Estas são as três maiores religiões monoteístas do mundo, ou seja, religiões que acreditam na existência de um único Deus.

Observe esse quadro comparativo. Quando ocorreu o nascimento de Jesus Cristo (momento que marca o início do calendário cristão) o calendário hebraico já estava no ano de 3761.

E quando Maomé fugiu para Medina (momento que marca o início do calendário muçulmano) os cristãos já estavam no ano de 622 depois de Cristo. Como resultado dessas diferenças temos a seguinte situação.

No momento em que este texto está sendo escrito os cristãos estão no ano de 2019, os judeus estão no ano de 5779 e os muçulmanos estão no ano de 1440. Percebeu? Cada uma das três maiores religiões monoteístas do mundo conta o tempo de um jeito diferente.

Além disso, os três calendários coexistem, ou seja, são utilizados juntos, ao mesmo tempo, pois existem cristãos, judeus e muçulmanos que compartilham o mesmo espaço social em várias partes do mundo.

Tem mais uma observação a ser feita. Existem algumas organizações sociais que não tem calendário. O tempo deles é o tempo da natureza.

Tempo Cronológico e Tempo Cronológico

Agora vamos falar sobre a diferença entre o TEMPO HISTÓRICO e o TEMPO CRONOLÓGICO. O Tempo Cronológico é bem fácil de entender.

Tempo Cronológico é o tempo do relógio, é o tempo do calendário. Portanto, o Tempo Cronológico possui regularidade, previsibilidade e estabilidade. O Tempo Cronológico utiliza medidas exatas que permitem consultar o tempo com rigor e precisão.

Já o Tempo Histórico é completamente diferente. Ou seja, o Tempo Histórico é irregular, imprevisível e instável.

Ele não possui exatidão e também é impossível dizer com precisão quando começou e quando terminou um determinado processo histórico. Várias temporalidades se misturam e ocorrem simultaneamente.

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Tempo, História e Filosofia

Fala a verdade, você está achando este assunto de Tempo Histórico meio complicado. Realmente não é um tema simples de ser tratado, pois aqui nós entramos em uma discussão filosófica.

Como é possível estudar uma coisa que muda o tempo todo? A Filosofia é muito útil nesse momento de nossa aula. Então, venha comigo fazer algumas reflexões filosóficas sobre o tempo.

Falar sobre o tempo é sempre muito complicado, pois ele pode assumir várias dimensões. Nós podemos falar em Tempo Biológico, Tempo Geológico, Tempo Histórico, Tempo Psicológico, entre muitos outros.

Tempo Biológico

Vamos a um exemplo bem simples. O Tempo Biológico é o tempo que todo ser vivo experimenta, passando pelas fases do nascimento, amadurecimento e morte. Este é o Tempo Biológico de todo ser vivo.

Nós nascemos, amadurecemos e morremos. Porém, cada espécie, cada ser vivo tem um Tempo Biológico diferente.

Aos 12 anos de idade um ser humano ainda está em processo de desenvolvimento, somos ainda crianças. Um cachorro com 12 anos de vida já está adulto e no fim de seu processo biológico, ou seja, falta muito pouco tempo para ele morrer.

Percebeu a diferença. O Tempo Cronológico, o tempo do calendário é o mesmo, ou seja, um ser humano e um cachorro com 12 anos de vida. Porém, do ponto de vista do Tempo Biológico eles estão em momentos completamente diferentes.

Um deles está na fase do desenvolvimento, enquanto o outro está prestes a finalizar o seu tempo de vida neste planeta.

Como esta estrada é muito complicada, vamos oferecer a você alguns elementos para não se perder no meio do caminho.

QUAL É A ORIENTAÇÃO DO TEMPO? É possível se orientar pelo tempo? A resposta é sim.

QUAL É A LOCALIZAÇÃO DO TEMPO? É possível se localizar no tempo? A resposta também é positiva. Vejamos alguns exemplos.

Instante, Anterioridade e Posterioridade

Instante, anterioridade e posterioridade. O instante é aquele tempo rápido, quase imperceptível, quando você percebe já é tarde demais, pois aconteceu uma mudança e você sequer teve condições de acompanhar o evento.

Por exemplo, quando alguém diz “eu estava atravessando a rua, olhei para um lado e para o outro e em um instante a moto surgiu e me atropelou”.

A noção de anterioridade e de posterioridade são fundamentais para a vida de qualquer ser humano. Eles estão relacionados a tudo aquilo que aconteceu antes e depois de uma determinada referência central.

Por exemplo, nas investigações policiais é importante saber se as provas de um crime foram destruídas no momento anterior (antes) ou posterior (depois) da ocorrência de um assassinato (homicídio).

Ter essa informação muda completamente o rumo das investigações.

Reversível ou Irreversível?

O acontecimento é reversível ou irreversível? Estas são outras formas de se orientar e localizar no tempo. Uma conta de água de deixou de ser paga é um processo reversível, ou seja, mesmo depois do vencimento é possível pagar a conta com multa e juros e evitar que o fornecimento de água seja interrompido na sua casa.

Ou seja, processos reversíveis permitem que você altere o resultado de algo que já aconteceu. No nosso exemplo, trata-se da conta de água com data de pagamento vencida. Já outros processos são irreversíveis, ou seja, uma vez que tenham acontecido é impossível alterar o seu resultado.

Por exemplo, um homem discute com outra pessoa no trânsito, fica nervoso, perde completamente o controle emocional, saca uma arma e mata este indivíduo. Este homem pode até se arrepender depois.

Porém, este acontecimento é irreversível, não há como recuperar a vida dessa pessoa. Ela está morta e mudar o resultado desta situação é impossível, improvável.

Passado, Presente e Futuro

Passado, presente e futuro são as formas mais comuns de orientação e localização no tempo. Compreender o passado é compreender que alguma coisa já aconteceu.

Compreender o presente é ter consciência de que alguma coisa está acontecendo agora, neste exato momento. E compreender o futuro é ter o conhecimento de que o que você está fazendo agora terá um certo resultado daqui a algum tempo.

Comunidade HistoriAção Humanas

Tem um ditado popular que eu gosto muito e que está relacionado diretamente com a nossa relação com o tempo. Ele diz assim: “quem mais tarde quer colher mais cedo tem que plantar”.

Ou seja, se você quer colher os frutos no futuro tem que começar a trabalhar o mais cedo possível para obter este resultado. Você quer passar no ENEM? Quer ser aprovado no concurso público?

Quer tirar a carteira de motorista? Quer comprar uma casa ou apartamento? Essas são coisas que só podem acontecer no futuro se você fizer alguma coisa no presente para que o seu desejo se torne realidade.

Temos nestes exemplos o passado, o presente e o futuro acontecendo ao mesmo tempo.

Podemos concluir a nossa aula da seguinte forma. Se você não compreende a orientação do tempo não é capaz de agir e de produzir eventos na sua vida.

Um último exemplo. O agricultor sabe que existe um tempo adequado para plantar. Ele deve planejar essa ação com antecedência. Caso contrário não será capaz de colher.

E dessa forma ele e sua família vão passar fome. Se você deixar a vida te levar pode chegar em qualquer lugar. E este pode ser um lugar muito desagradável que você pode se arrepender para o resto de sua vida.

Temporalidades Históricas

Vídeo aula: Tempo Histórico e Tempo Cronológico – Parte 2

No início deste artigo eu afirmei que esse papo de estudar o passado para não cometer os mesmos erros no futuro é uma grande furada. Eu afirmei também que isto não pode ser considerado correto porque a História da humanidade não é uma marcha em linha reta em direção ao futuro.

Isso se explica porque o Tempo Cronológico (o tempo do relógio, o tempo do calendário) é completamente diferente do Tempo Histórico. A partir de agora você vai compreender com mais clareza os motivos dessa diferença.

Continuidade e Descontinuidade

Uma das dimensões assumidas pelo Tempo Histórico é a CONTINUIDADE. Em História falamos em continuidade quando depois de um longo período histórico alguns aspectos socioculturais continuam fazendo parte da organização social de um povo, mesmo em meio às dificuldades surgidas no caminho.

Exemplo: existe uma CONTINUIDADE na organização política da Inglaterra. Lá a Monarquia Parlamentar foi estabelecida em 1688 (durante a Revolução Inglesa) e continua assim até os dias atuais.

A Inglaterra enfrentou guerras violentíssimas contra a França no século XVIII, enfrentou uma França ainda mais poderosa sob o comando de Napoleão Bonaparte no início do século XIX, enfrentou a Primeira Guerra Mundial, superou as dificuldades da Crise de 1929, resistiu ao Nazismo e à Segunda Guerra Mundial, passou ainda pela Guerra Fria e mesmo depois de todas essas dificuldades a Inglaterra continua sendo uma organização política caracterizada pela Monarquia Parlamentar.

Temos ainda a DESCONTINUIDADE. A descontinuidade, por sua vez, é utilizada para o caso de organizações socioculturais caracterizadas pela interrupção de algum mecanismo de sua organização interna.

Em alguns casos a ausência de continuidade pode trazer resultados negativos para toda a coletividade. Exemplo: Na História do Brasil houve uma descontinuidade na participação política dos analfabetos, pois eles foram impedidos de votar em 1891 e só reconquistaram esse direito em 1988 (97 anos depois).

Essa descontinuidade na participação política do povo brasileiro foi uma coisa gravíssima, pois neste período de 97 anos a maior parte da população era analfabeta. E, portanto, a maior parte do povo ficou impedido de participar das decisões políticas mais importantes do Brasil.

Isso significa que a minoria da população, uma elite política, comandou o Brasil durante quase 100 anos sem ter que levar em consideração os interesses da maioria da população. Essa descontinuidade custou muito caro para o amadurecimento político do povo brasileiro, que ainda não sabe votar, sendo muito comum entre nós o voto de deboche.

Aquele voto em pessoas totalmente despreparadas como forma de protesto contra a situação política do país. Acontece que esses candidatos escolhidos para o voto de deboche ou voto de protesto acabam muitas vezes sendo eleitas e vão decidir sobre os rumos políticos de nosso país.

Mudanças e Permanências

Vamos falar sobre outra característica do Tempo Histórico: a MUDANÇA. A mudança diz respeito às alterações, que às vezes são lentas, outra vezes são mais rápidas, ocorridas no interior de uma organização social.

As mudanças são percebidas com mais clareza com um certo distanciamento temporal. Vamos a mais um exemplo. Houve uma mudança nas relações de trabalho no Brasil durante o século XIX (1801 a 1900).

Neste contexto predominava em nosso país a escravidão. A escravidão era a principal relação de trabalho em nosso país neste período. Desde o 1810 a Inglaterra pressionava Portugal para acabar com o tráfico de escravos, mas isso só aconteceu em 1850, ou seja, 40 anos depois, quando o Brasil já era um país independente.

Novas leis surgiram ao longo da segunda metade do século XIX. Em 1871 foi decretada a Lei do Ventre Livre, que concedia a liberdade para os filhos de escravas nascidos a partir desta data, desde que certas condições fossem atendidas.

Em 1886 foi decretada a Lei dos Sexagenários, que concedia a liberdade para escravos que tivessem completado 60 anos. E, por fim, em 1888 foi decretada a Lei Áurea, que acabava definitivamente com o trabalho escravo no Brasil.

Ao mesmo tempo que a escravidão era lentamente abolida do Brasil ocorria a introdução da mão-de-obra livre assalariada em nosso país, com a chegada do imigrante europeu. Esse processo de mudança foi marcado por diversos conflitos entre os defensores da escravidão e os partidários da liberdade.

E, dessa forma, durante o período de um século é possível observar a MUDANÇA nas relações de trabalho no Brasil, com o fim do trabalho escravo e a introdução do trabalho livre assalariado.

Você só consegue observar essa MUDANÇA com mais clareza se houver esse distanciamento no tempo. Neste caso específico foi necessário observar uma série de acontecimentos desde uma época em que o Brasil era uma colônia de Portugal até o fim da monarquia para entender o complicado processo que levou ao fim da escravidão em nosso país.

Junto com a mudança temos também a PERMANÊNCIA como outra dimensão do Tempo Histórico. As permanências ocorrem quando uma característica cultural do passado ainda pode ser verificada no presente, mesmo com a ocorrência de mudanças profundas na organização social de uma comunidade. Voltaremos ao exemplo da escravidão.

A escravidão acabou oficialmente no Brasil em 1888.  Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não obstante em pleno século XXI muitas pessoas ainda são submetidas a condições de trabalho semelhantes à escravidão, tanto no campo quanto na cidade.

Elas perdem a liberdade e são obrigadas a trabalhar sob a vigilância de outros homens tal como se fossem escravas. Quando uma denúncia é feita as autoridades competentes entram em ação para impedir que tais práticas continuem acontecendo.

Veja bem. A escravidão acabou oficialmente no Brasil a partir de uma lei decretada em 1888. Entretanto, mais de 120 anos depois a escravidão permanece presente nas relações culturais de nossa sociedade, pois é muito comum encontrar no noticiário a libertação de pessoas que estavam submetidas a condições de trabalho análogas à escravidão.

Rupturas

Vamos falar agora da dimensão do Tempo Histórico conhecida como RUPTURA. Quando se fala em ruptura em termos de Tempo Histórico estamos falando de mudanças rápidas, violentas e radicais no interior de uma sociedade.

As RUPTURAS no Tempo Histórico são visíveis em processos revolucionários, quando quase repentinamente uma forma de organização social é “virada ao avesso”. Como exemplo podemos citar a Revolução Francesa.

Durante a Revolução Francesa a ordem social dominada pelos privilégios do Clero e da Nobreza foi rapidamente colocada no chão de forma extremamente violenta. Houve inclusive a execução do rei Luís XVI e da rainha Maria Antonieta na guilhotina.

A França nunca mais foi a mesma depois dos acontecimentos ocorridos entre 1789 e 1799. Lá as mudanças foram violentas e radicais, repercutindo em quase todo o mundo ocidental.

A RUPTURA do Tempo Histórico na França foi algo tão radical que o dia 14 de julho de 1789 (data da Queda da Bastilha) é o marco simbólico do fim da Idade Moderna e início da Idade Contemporânea.

Ou seja, teve fim uma determinada organização social e surgiu outra completamente diferente em seu lugar ao longo dos 10 anos da Revolução Francesa.

Sincronia

Em termos de Tempo Histórico podemos falar ainda em SINCRONIA. Em História falamos em processos sincrônicos quando determinados acontecimentos ocorrem quase ao mesmo tempo ou então em contextos muito próximos uns dos outros.

Como exemplo podemos citar a Inconfidência Baiana de 1798, que ocorreu no mesmo período em que se desenvolvia a Revolução Francesa (1789/1799). Como a Revolução Francesa começou antes houve uma influência das ideias revolucionárias europeias na Inconfidência Baiana.

Cada um desses processos possui suas próprias características. Entretanto, a proximidade relacionada ao tempo fez com que algum contato fosse estabelecido pelos indivíduos que estavam na América e na Europa, separados pelo Oceano Atlântico.

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